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A pandemia nos levou a grandes mudanças de hábitos. Ao famigerado distanciamento social, à sensação de que um simples respirar sem o uso de máscaras perto do outro pode oferecer riscos à sua vida. Mas há coisas que podem tirar o foco de tanta adversidade e fazer brotar em nós um pouco de vida, e uma delas é a leitura.

Por anos, a antropóloga francesa Michèle Petit estuda os benefícios da leitura em contextos de crise e, ao ler um de seus livros, uma questão me intrigou: o que esperar da leitura em uma situação como a presente?

A leitura nos permite ver a vida de outra forma e contribui para uma atividade de reconstrução de nós mesmos. Ao lermos um livro, encontramos elementos que estão relacionados com nossos anseios internos, com aquilo que somos e desejamos ser. Para Petit, mais do que fazer uma interpretação erudita, o essencial da leitura é o trabalho de pensar, de fazer associações com a nossa realidade.

Quem nunca torceu pelo sucesso de uma personagem durante a leitura de um livro? A relação do leitor com a história no momento da leitura é de identificação e cumplicidade. É ela que permite a ressignificação das experiências trágicas que vivemos em nossas vidas. Ao vermos que a personagem, em situação semelhante à nossa, consegue superar as dificuldades, o sentimento de que também podemos superar toma conta de nós, leitores.

Podemos nos apropriar efetivamente de um texto e partilhar com ele nossas angústias pois, algumas vezes, dependemos do outro “para revelar nossas próprias fotografias”. Ler um livro é como encontrar o “outro”. É uma forma de nos reconhecermos e de elaborarmos, no sentido psicológico da palavra, angústias de nossas vidas.

Então que possamos, neste momento de incertezas, fazer como os bebês que costumam pousar livros abertos sobre a cabeça, como se fosse um pequeno telhado. O livro é uma espécie de “casa” que nos abriga e conforta, um lugar que podemos carregar conosco e voltar para ele sempre que quisermos.

Se os tempos pandêmicos nos fazem sentir sozinhos e ansiosos, ler um livro pode nos dar o alento que precisamos. Desde o início da pandemia houve um significativo aumento na procura por livros, um setor que antes estava em baixa. Pesquisa do 11º Painel do Varejo de Livros no Brasil, de novembro de 2020, revelou que 3,62 milhões de títulos e 32,81 milhões de livros foram vendidos pelo setor livreiro ao longo do ano passado. Ou seja, as pessoas estão lendo mais, o que é uma boa notícia em meio a tantas ruins que chegam todos os dias.

Interpreto o aumento na venda de livros como um sinal de que as pessoas têm percebido o valor que as leituras têm nesses tempos sombrios. Os seres humanos têm a necessidade de sonhar, contar piadas e compartilhar histórias para completar sua experiência nesse mundo. A realidade muitas vezes não nos basta e é esse sentimento de incompletude que pode nos impulsionar a buscar novos mundos não explorados nas páginas dos livros. Os livros existem para completar, imaginariamente, um mundo que é incompleto e imperfeito. Com a licença devida ao poeta, adapto frase e a proclamo com ares de prece: se nada nos salva da morte, que pelo menos os livros nos salvem da vida.

(*) Thays Carvalho Cesar é professora do curso de Letras da área de Linguagens e Sociedade do Centro Universitário Internacional UNINTER   

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Tudo aquilo que só um livro proporciona

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