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Há 15 mil anos, nossos ancestrais se deslocam pelo nosso território sagrado, hoje chamado de Brasil. Construindo rastros e caminhos de vida na Amazônia, de pertencimento à Mãe Terra. Das mãos dos nossos povos foram semeadas as sementes que geraram árvores, cuidaram dos rios, da floresta e dos animais. Alimentaram nossas gerações por séculos sem esgotar nossos ecossistemas e curaram as doenças com as plantas medicinais, cuidaram dos rios e das diversas espécies animais, numa relação de cuidado e respeito, porque a Terra é Mãe, e mãe se ama e se cuida.

As mulheres indígenas, primeiras artesãs, produziam suas cerâmicas, e desse ofício surgiu a terra preta que fertilizou a terra. Os mais velhos sempre foram respeitados como fontes de sabedoria, quanto mais velho, mais valorizado é na nossa cultura.

Mas, com o processo de colonização, o primeiro território tirado dos nossos povos, foram transformados em cidades, um modelo criado tão distante da nossa forma de organização política e social, principalmente nos dias de hoje, onde ficamos invisibilizados pelo sistema criado para nossas antigas aldeias, onde as relações entre pessoas e com a terra é outra.

Para nós indígenas é possível, ainda hoje em Manaus, sentir e ouvir o canto dos nossos ancestrais no balançar das folhas das grandes árvores, no banzeiro dos rios, no cheiro do breu branco exalado das aldeias que fortalece nossa espiritualidade e no rosto dos nossos mais velhos a missão de manter vivas nossas memórias. É possível ouvir o som dos maracás chamando para a luta e resistência de um povo que persiste em ter sonhos e esperanças, o barulho dos pés nas grandes danças circulares que anima, porque é preciso cantar e dançar mesmo na luta e diante de tantos desafios seculares. Mas, como pode isso ser possível, numa grande metrópole, moderna e com mais de 2 milhões de habitantes? A resposta é tão simples, mas tão incompreendida para o mundo de muitas pessoas. Porque a nossa relação com o território vai para além dos limites territoriais criados.

Nossa relação é de pertencimento ao território, muito diferente da relação daquilo que se definiu como um bem, uma propriedade particular. É uma relação Espiritual, Sagrada e Cultural, uma relação coletiva e ancestral. Esse talvez seja o ponto mais difícil para superar e compreender quando falamos de indígenas e cidades no Brasil.

Para muitas pessoas e para as políticas de governo é impossível conceber a ideia de que nas cidades vivem indígenas, sem que sua identidade seja questionada. “Estão vestidos, usam celulares, falam o português, não são mais indígenas de verdade”. Um desafio que precisa ser superado, o qual demonstra total desconhecimento do processo colonizador a que fomos submetidos.

Nossa identidade ultrapassa os limites das fronteiras e das reservas, está no sangue. Somos uma nação bilíngue, de vários povos e culturas. Somos a raiz que deu origem às cidades. Amazoniza-te!

Marcivana Satere Mawé –  Mulher, mãe, liderança indígena e membro da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (COPIME).

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Povos Indígenas e o direito ao território

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