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Estamos a percorrer os quilômetros finais de um longo, sombrio e terrível ano que certamente será lembrado como um dos mais nefastos para a cultura e arte de um modo geral no Brasil.

Acontecimento sem precedentes de igual monta no país, o incêndio e destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi certamente uma das passagens mais tristes, vergonhosas e lamentáveis dessa jornada. E enquanto as chamas ainda ardiam aqui e ali e os escombros eram revirados no necessário trabalho de rescaldo, ouvimos, lemos e assistimos ao espetáculo de sempre das autoridades irresponsáveis que de tudo faziam para tentar justificar o injustificável e tirar o delas da reta, afinal, tão brasileira como a jabuticaba, é a propensão que autoridades e governantes destes país têm de querer mascarar realidades, negar incompetências, fazer desaparecer verbas e se fingir de morto.

O Brasil é um imenso celeiro onde se guardam amontoados e desordenados um sem-número de precariedades. O Museu Nacional virou cinzas. Por este país afora, instituições culturais e de pesquisas sobrevivem à míngua, acervos estão se deteriorando e prédios seculares estão em via de desaparecerem da paisagem.

Tantos males fizemos a nós mesmo que calhamos de eleger para a presidência do país um cidadão estúpido, grosseiro e sem formação humanística, que olha para o passado e distorce a História e que se diz anunciador de um bom futuro, aliando-se no presente com setores retrógrados da nossa sociedade, como a bancada evangélica do Congresso Nacional, uma gente que faz de tudo para que a pluralidade de pensamento e o debate de ideias sejam enterrados e passe a vigorar uma única visão de mundo, que é a dela.

Para mim tão lamentável quanto a queima total do Museu Nacional e a eleição do dito-cujo Jair Bolsonaro, foram as notícias amplamente divulgadas do fechamento de unidades e dos pedidos de recuperação judicial primeiro da Livraria Cultura, em outubro, e, mais recentemente, da Saraiva. Sim, é inegável que manter a estrutura de livrarias que mais parecem lojas de departamentos em tempos de crise econômica deve ser extremamente difícil. Por outro lado, há sim o fato de elas estarem concorrendo com um gigante on-line como a Amazon e a verdade, que também não se pode negar, de que o brasileiro comum nunca foi um leitor contumaz, nunca teve apego aos livros, o que diz muito da precariedade educacional deste país. E se o brasileiro comum sempre ou quase sempre se manteve longe dos livros, o advento das chamadas redes sociais como o Facebook e o WhatsApp, eu acredito, vieram para lançar uma pá de cal sobre qualquer fantasia de que algum dia iríamos ser uma nação de leitores ou, pelo menos, uma nação com elevado número de leitores.

Nos últimos anos eu tenho tido o privilégio de poder viajar por diversos estados deste país. Sou um leitor em permanente procura por livros. E normalmente, quando eu viajo, costumo adquirir obras para o meu acervo. Regressei recentemente de Ouro Preto; e, para o meu contentamento, encontrei naquela encantadora e preciosa cidade, duas boas livrarias. Mas isso de livraria assim, na rua, tem sido cada vez mais raro de encontrar; é mais fácil de se encontrar – mesmo nas capitais – sebos do que livrarias, porque a maioria delas, como as próprias Cultura e Saraiva, já citadas, há tempos decidiram se instalar em shopping centers com lojas imensas onde oferecem uma infinidade de produtos além dos livros. Talvez – e eu repito talvez – caso essas livrarias mantivessem unidades menores negociando essencialmente livros, tivessem uma possibilidade maior de sobreviverem.

Em tempos de realidade virtual, e-books e redes sociais, eu continuo acreditando na permanência e na resistência dos livros; e tanto que dentro de alguns dias eu irei receber de uma gráfica o terceiro título de minha autoria que sairá, assim como os outros que pouca gente comprou, às minhas próprias custas.

A minha resposta para a pergunta-título deste artigo – livros para quê? – é que livros são para engrandecer a vida de cada um de nós, livros são para dar brilho e sustentação à existência, livros são, enfim, para guardar uma memória seja ela real ou inventada.

Foto: Flickr/ABC Open Riverland
Ler é seguramente um imperativo na minha vida.  E o apego que eu mantenho para com os livros é uma fonte permanente não só de aprendizados mas também de satisfação plena

Por Clênio Sierra de Alcântara

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Livros para quê?

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