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Davi não quer morrer. E nem é tanto por apego à sua experiência telúrica. É uma questão de decoro: ninguém que deve mais de 60 prestações de um financiamento pode, simplesmente, morrer. Isso seria muito indelicado, e até mesmo desleal, com a instituição financeira credora. Se bem que, no momento em que a gerente disse a Davi que o financiamento foi aprovado com a melhor taxa do mercado, ela desviou o olhar. Davi notou que o governador fez a mesma coisa quando disse, em setembro de 2020, que o relaxamento das medidas restritivas nada tinha a ver com a proximidade das eleições municipais. E o olhar do presidente também se tornou estranhamente oblíquo quando ele atestou a segurança e a eficácia do tratamento precoce contra a COVID-19. O olhar dos mentirosos é sempre desviante. As pessoas não percebem esse detalhe por que elas geralmente focam na íris do seu interlocutor. O segredo é prestar atenção nas escleras. O branco dos olhos nunca mente.

  Davi também não mente quando diz que não quer morrer. Essa acusação é ridícula. Se ele realmente quisesse morrer, já teria morrido há muito tempo, de dengue hemorrágica, numa época de sua vida em que tudo era escasso, fracionado, diluído, humilhante; e ele estava pouco se lixando paro o preço da gasolina, o que preocupava mesmo era o preço do desodorante. Porque na espiral de indignidades que era a sua existência, tudo parecia suportável, menos feder. Se sob condições tão adversas, Davi nunca pensou em morte, por que o faria agora que conseguiu comprar um carro zero sem dar 1 real de entrada e teve o seu cadastro de motorista de aplicativo aprovado? Se a maior preocupação de Davi hoje é o preço do combustível, é um sinal de que ele prosperou.

As pessoas que tentam convencer Davi a ficar em casa não têm a menor noção dos juros praticados nos financiamentos de automóveis. Davi também não entendeu muito bem a teoria, mas na prática ficou bem óbvio que ele adquiriu 1 veículo e vai pagar por 3. Alguém que comprou um Chevrolet Ônix pelo preço de uma Land Rover pode ficar em casa? Só se for no mundo dos ricos alienados da avenida Boa Viagem, a turma do home-office beira-mar que acusa Davi de estar dando lugar à pulsão de morte. Davi nem tem resposta pra isso. Se pudesse falar diretamente a eles, apenas diria: vão procurar uma lavagem de roupa, vão procurar uma aulinha on line de ioga, vão procurar um chá que cure o banzo que bate quando vocês pensam em Miami. É graças a especulação imobiliária compulsiva de vocês que morar no bairro de periferia que Davi sempre morou está mais caro do que morar em Manhattan. E é Davi que não se preocupa com a vida do próximo?

Raça de víboras! Davi é um militante antiaborto, Davi distribui sopa aos moradores de rua da zona portuária do Recife, Davi tira do pouco que tem para dar a quem tem menos ainda. É o nome desse cara que vocês querem inscrever no infame rol de inimigos públicos.

Davi não quer que as pessoas desejem sua morte pela vergonhosa satisfação de poder dizer que “avisaram”. Davi também não quer que o Brasil vire uma cracolândia de vírus e de fome só pra ele ter o gostinho de dizer que “avisou”. O que Davi quer é ser compreendido. Ele é jovem e não tem comorbidades, ele sempre cuidou da mente, do corpo e do espírito. Ele não pode ficar em casa esperando pela vacina. Ele está apto a trabalhar apesar da crise sanitária. Sua prosperidade depende disso. Os invejosos vão dizer que a prosperidade de Davi é ilusória, que tudo que ele tem, na verdade, são juros a pagar pro resto da vida, que ele é uma espécie de rentista às avessas. Sendo verdade, ai do capitalismo se Davi morrer de Covid-19! Ai dos que estão em casa se, na guerra contra o vírus, a infantaria que se espreme diariamente nos ônibus e metrôs super lotados decidir também ficar em casa!

Antes que alguém tente, a pecha de negacionista não cola em Davi. Mas ele acredita na pandemia, em Deus, na oração, na máscara, no álcool em gel, até em algumas loucuras do governo, na azitromicina, na ivermectina, na melatonina e na vacina. Infelizmente, a única coisa que Davi não acredita é que o distanciamento social pode salvar vidas. No nosso país, propor essa medida soa como uma ironia. Porque, no Brasil, o distanciamento social empilha corpos em praça pública há pelo menos 500 anos.  Mas essa é uma das poucas soluções para salvar vidas.

*Israel Pinheiro é escritor pernambucano e autor do livro de contos “Um deus que não passeia sobre as águas”. Ele também é formado em marketing.

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Desespero e autoengano: o retrato de uma pandemia

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