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Depois da recusa da Colômbia e da Argentina em sediarem a Copa América, devido às crises política e sanitária destes países, o governo brasileiro respondeu rapidamente e de forma favorável à solicitação da Conmebol para que a competição fosse realizada no Brasil.

O evento futebolístico está previsto para o período compreendido entre 13 de junho e 10 de julho de 2021, com disputas entre países da América do Sul, o que atrairá milhares de pessoas para o país, como jogadores, comissões técnicas e torcedores, ainda que a previsão seja de que as partidas sejam fechadas ao público, pois já sabemos quão apaixonadas são as torcidas latinas.

No Brasil, já tivemos exemplos de grandes aglomerações de torcedores em hotéis e nos arredores dos estádios em dias de partidas e em ruas, festas e bares nos dias das finais da Copa Libertadores da América e do Campeonato Brasileiro, em janeiro e fevereiro desse ano, respectivamente. Ou seja, as aglomerações vão para além dos estádios no “país do futebol”. Além disso, ainda há grandes possibilidades de manifestações populares contra o governo e a forma com que este vem lidando com a crise sanitária e, para agravar ainda mais a situação, em meio ao andamento da CPI da Pandemia acontecendo no Senado Federal.  

site da Agência Brasil publicou, no fim da tarde do dia 1º de junho, o anúncio do ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, que o Brasil sediará o evento e que as partidas acontecerão nos estados do Mato Grosso, Rio de Janeiro e Goiás, além do Distrito Federal. Outros estados se recusaram a sediar jogos da competição. O argumento utilizado por ele e pelo presidente Jair Bolsonaro é de que outros campeonatos estão acontecendo sem problema algum, o que sabemos muito bem que não é verdade.

O Campeonato Brasileiro, que finalizou no começo desse ano, teve muitos problemas com atletas e equipes técnicas com surtos da Covid-19 – cerca de 320 casos entre jogadores e técnicos –, assim como estamos vendo acontecer na Copa Sul-Americana e na Libertadores. Há pouco tempo, a equipe do River Plate teve um surto com mais de 20 atletas infectados e ficou, inclusive, sem goleiro para a competição.

O Grêmio, que disputa as duas competições internacionais, só nos últimos testes, teve dez casos ativos entre atletas e comissão técnica. No mesmo dia em que decidiam onde seria a Copa América, o jogador Arrascaeta testava positivo para a Covid-19, ficando de fora das partidas do Uruguai pelas eliminatórias para a Copa do Mundo, assim como ocorreu com o jogador Vidal, do Chile, que foi hospitalizado. Atletas de alguns países, como Chile, Uruguai e Argentina, manifestaram-se contrariamente à realização da competição.

Assim como nas demais competições, a realização da Copa América coloca em risco a população em geral, por motivos óbvios, além de atletas, técnicos e árbitros, entre outros envolvidos e seus familiares. Vivemos um momento em que o país ainda não conseguiu controlar a proliferação do vírus, com quase meio milhão de mortes, na iminência do colapso do sistema de saúde pela falta de leitos de UTI e pela falta de oxigênio em algumas cidades. Ainda n]ao temos vacinas suficientes para toda a população, que conta com pouco mais de 10% de imunizados com as duas doses, e em que novas cepas, como a indiana, preocupam especialistas no Brasil e no mundo. Diversos epidemiologistas e infectologistas já se pronunciaram, dizendo que não há qualquer base técnica ou sanitária para que o país aceite um evento desse porte no cenário atual.

Além de tudo isso, há um tema importante nessa questão, que passa pela ética, que é a imunização de atletas, prevista para a realização do evento. É justo que jogadores e comissões técnicas “furem a fila” da vacinação por participarem de competições? É correto que sejam imunizados antes de pessoas com comorbidades, de grupo de risco, de profissionais que não podem ficar em casa porque têm que dar de comer às suas famílias e com filas de espera para a UTI por todo o país? Houve posicionamento de atletas quanto a essa questão, como as jogadoras da seleção brasileira de futebol feminino, que se manifestaram contrariamente à vacinação de atletas antes de grupos prioritários para os Jogos Olímpicos. Ademais, ainda há problemas com o calendário de vacinação das equipes que participarão da Copa América, pois algumas podem ter a segunda dose só quando a competição já estiver finalizada.

O retorno do futebol em nosso país foi uma decisão apressada desde o Brasileirão, que teve início em pleno pico da pandemia em 2020. Todas as áreas estão sendo afetadas, assim como a esportiva, mas, infelizmente, decidiram que o esporte não pode esperar, colocando em risco a segurança dos atletas, das equipes multidisciplinares, de todos aqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos nas competições e da população em geral. Jornais do mundo inteiro noticiaram o absurdo que estamos prestes a presenciar no Brasil, um dos países de maior descontrole da pandemia. No entanto, muitos brasileiros parecem não ligar mais. As mais de 2000 mortes diárias que temos – e que já chegaram a 4000 – estão sendo banalizadas por questões políticas ou econômicas.

Sou amante do futebol, mas penso que este não é um bom momento para Copa América, Libertadores, Sul-Americana, Copa do Brasil, Campeonatos Estaduais ou Brasileiro em meu país. Enfim, veremos a questão sanitária ser deixada de lado e teremos mais um episódio de pão e circo para a história. O que está em jogo não é só o futebol. São vidas!

 (*) Katiuscia Mello Figuerôa, doutora em Ciências da Atividade Física e Desportiva, professora da área de Linguagens Cultural e Corporal nos cursos de Licenciatura e de Bacharelado em Educação Física do Centro Universitário Internacional Uninter.

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Copa América no Brasil: o que está em jogo?

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